Leme
nas mãos?
18/04/1999
Roland
Veras Saldanha Jr. (*)
Por
quase cinco anos o Brasil esteve na situação de pequenino barco ancorado em mar
revolto. A estratégia de drástica sobrevalorização do câmbio real, sustentada
até janeiro de 99, gerou exatamente os efeitos esperados.
Remitindo
a fins de 94, em ambiente de liberalização comercial, a abrupta e forte
apreciação do câmbio nominal foi mais que suficiente à estabilização dos preços
domésticos, tendo prosseguimento as pressões anti-inflacionárias pela
sustentação das taxas de desvalorização cambial em valores inferiores ao
diferencial entre as taxas de inflação doméstica e estrangeira.
Políticas
de âncora cambial, sinônimas à sobrevalorização do câmbio real, apresentam
efeitos dinâmicos conhecidos pela teoria e sobejamente evidenciados na prática.
Inicialmente observa-se período de aquecimento de demanda, eventualmente
eufórico como no Real, devido à ampliação da renda disponível corrente
associada à redução das receitas de seignorage nominal e da percepção, usualmente míope, de
ganhos no poder de compra em termos de bens comercializáveis e ampliação das
possibilidades de crédito.
As
forças artificialmente despertadas pela estratégia cambial operam estímulos
diversos sobre o setor de bens comercializáveis, potencial gerador de divisas,
e não comercializáveis, protegido da concorrência externa direta. Costuma
ocorrer, como observado no Real, reestruturação setorial na produção em
privilégio ao setor menos penalizado com a sobrevalorização cambial, o de não
comercializáveis.
Percebidos
os efeitos da sobrevalorização sobre o saldo da balança comercial, que tende a
deteriorar-se com extrema rapidez, encontra-se o início da fase inóspita deste
tipo de experimento. A partir de então, manter-se a sobrevalorização exige
forte e contínuo influxo de capital externo, recessão ou ambos.
A
ancoragem cambial, diante da trajetória dinâmica que enseja, é,
necessariamente, uma política apenas transitória.
Ainda
que de conveniência social duvidosa, o uso desta estratégia poderia ser
defensável em situações especialíssimas. Inescapável, contudo, a necessidade de
fixação prévia de uma regra de saída clara e factível, um caminho para o
retorno à rota de equilíbrio sustentado após obtida a estabilidade de preços.
Inventivos
que fossem os policymakers tupiniquins, não poderiam fugir à
conformação de cenário em que as políticas monetária e fiscal perseguidas no
decorrer da ancoragem mostrassem consistência ao levantamento da âncora no
futuro.
Não
obstante, as dificuldades em implementar as reformas tributária, previdenciária
e administrativa, pré-condições à existência de um Real forte em caráter não
transitório, parecem ter sido menosprezadas ou, tautologicamente, os esforços
no sentido de sua realização mostraram-se insuficientes. Erro ou lassitude,
perdeu-se o controle sobre o barquinho, permanecendo o país a boiar, sem
crescimento ou rumo certo, dependendo apenas de sua capacidade em atrair
capitais externos que permitissem postergar o naufrágio, o fim da viagem do
Real.
Não
se deve imputar a outro, que não ao povo brasileiro e seus dirigentes, a
responsabilidade por ter escolhido a estratégia de estabilização inconsistente.
Tanto se repele a simples via do ajuste fiscal e monetário sem mágicas ou
truques pelos efeitos recessivos que antecipa, mas termina-se por ter que
enfrentar piores desígnios, recessão igual ou mais profunda e possível retorno
da inflação sem rearranjos estruturais de fôlego, de fato, com distorções
estruturais ainda maiores.
Com
o levantamento da âncora, o leme retornou aos brasileiros. Agora, contudo, em
plena recessão, com patrimônio público "privatizável"
bastante reduzido, endividamentos interno e externo substancialmente ampliados,
e a responsabilidade de tornar a encontrar o horizonte do crescimento.
Aparentemente
superada a turbulenta transição para a flexibilidade cambial, é momento de
perceber com seriedade a importância da sobriedade na política monetária e a
impossibilidade de sua consecução sem reformas estruturais profundas no âmbito
fiscal.
Será
necessário trazer de volta ao setor de comercializáveis os recursos
impropriamente deslocados à produção de bens protegidos da concorrência externa pela artificial
política de sobrevalorização praticada nos últimos anos, uma readequação de caráter passageiro, mas recessivo.
O
atual comprometimento com a manutenção das baixas taxas de inflação mostra-se
risível e incongruente à sustentação de padrões aceitáveis de expansão da
oferta de moeda, diante das astronômicas taxas de juros praticadas e os
déficits orçamentários que ensejam, mesmo considerada a tendência recente de
redução na remuneração dos títulos públicos.
Os
ajustes fiscais também apontam para retardamento da tomada do crescimento e a
tentação pelo afrouxamento da disponibilização de
moeda/crédito precisa ser evitada. Sem inflação haverá recessão.
Os
caminhos adequados atualmente são idênticos aos que existiam há cinco anos,
apenas mais árduos e dolorosos em função dos efeitos perniciosos acumulados
pela estratégia fracassada.
Leme
nas mãos, resta saber se o Brasil permanecerá disposto a enganar-se com
estratégias "fáceis",
"milagres econômicos",
ou optará pelo, inicialmente, penoso, mas, futuramente, recompensador,
caminho dos fundamentos.
Leme
nas mãos?
*Professor do Departamento de Economia da FEA/PUC-SP