Desvalorização Cambial: Problema Econômico?

 

Resumo

O desequilíbrio no setor externo derivado da agressiva valorização do câmbio no Plano Real pode ser postergado mas não perpetuado.

Analisando alternativas para a  inevitável correção da sobrevalorização cambial, discutem-se  custos da tentativa de postergar os ajustes.

 

Introdução:

 

O Plano Real comemora três anos de implementação com expressivos resultados no que concerne ao controle do processo inflacionário. De fato, conforme exibe o gráfico 1, as taxas mensais de inflação foram derrubadas do patamar de quase 50% (6/94) para algo em torno de 2% em menos de 3 meses, tendo, a partir de então, revelado tendência menor mas persistente de queda. 

O sucesso incontestável no campo da inflação veio, contudo, acompanhado de importantes distorções na estrutura de preços relativos, a sobrevalorização cambial, que redundaram na rápida deterioração das contas externas. Concomitantemente, sinais de dificuldades no financiamento da estratégia de desinflação  tornaram-se aparentes, levantando dúvidas no que concerne às possibilidades de sustentação da estrutura básica de condução do plano.

O cenário que se desenha em meados de 1997, diante das dificuldades expostas, suscita o interesse pela análise das alternativas e repercussões de correções nas diretrizes fundamentais do Real. Centrando a discussão na política de câmbio, comparam-se os efeitos prováveis de uma máxi-desvalorização e de uma aceleração na taxa de depreciação do Real contra o Dólar, no sentido de mitigar os desequilíbrio externo. A alternativa de manter inalterada a política atual, a seu turno, é defensável sob a aposta de que, no decorrer do tempo, economia se reestruture e cresça de forma a reduzir o desequilíbrio externo sem a necessidade de correções importantes no índice de câmbio real.

No dilema entre manter a sobrevalorização, aguardando os ajustes estruturais, ou corrigir o câmbio, a escolha está entre trajetórias alternativas de convergência a uma posição sustentável para o setor externo. Neste sentido, a questão não é se a correção do índice cambial ocorrerá, mas como e quando uma situação de equilíbrio externo sustentável será atingida. 

Preparando a análise das repercussões das escolhas dos responsáveis pela política cambial, na próxima seção discute-se a lógica da estabilização de preços em sua íntima conexão com o controle do câmbio nominal, ao que se segue uma breve explanação do impacto desta política sobre o câmbio real.

Em sequência, as três alternativas básicas de correção do desequilíbrio cambial e externo são avaliadas. Seguem as conclusões.

 

 

 

 

A Estabilização e a Sobrevalorização

 

O mecanismo responsável pela drástica e sustentada redução das taxas de inflação no Real consistiu, em linhas gerais[1], da ancoragem dos preços domésticos ao câmbio nominal. Tipicamente, a âncora de câmbio nominal ocorre da seguinte forma:

1.    O governo se compromete em manter o câmbio nominal em determinado nível (ou a reduzir sua taxa de desvalorização);

2.    Presume-se que o governo fará esforços para adequar suas políticas monetária e fiscal de forma compatível com a meta cambial;

3.    Monitorando diretamente o câmbio (e, por suposição, as políticas monetária e fiscal) os agentes privados tendem a ajustar seus preços e salários à taxa de variação de preços determinada pela política cambial. Controlando o câmbio nominal, por esta via, é possível determinar a evolução dos preços domésticos.

 

Gráfico 1         

 

A eficácia deste processo, como decorre de sua lógica, depende essencialmente da capacidade do governo em fazer os agentes privados acreditarem que ele tem o câmbio nominal sob controle.

Tradicionalmente, o poder sobre o câmbio é determinado de forma imediata pelo volume de reservas internacionais disponíveis para neutralizar eventuais apostas contra o plano de estabilização e, mediatamente, pela implementação dos ajustes necessários à sustentação do contexto não inflacionário no decorrer do tempo.

A manutenção de estoques altos de reservas seria um indicador facilmente monitorável ¾ ainda que de confiabilidade duvidosa, como se discute na próxima seção ¾ da capacidade de sustentar o câmbio nominal.

No caso do Real,  eventualmente no intuito de preservar os estoques de reservas, a interferência na determinação do equilíbrio no mercado de divisas tem ocorrido de forma menos direta, vale dizer, por intermédio do estímulo à entrada de fluxos de moeda estrangeira pela conta de capitais. Balizando o diferencial de juros doméstico/internacional e contando com a alta velocidade com que respondem estes fluxos à mudanças na sua remuneração esperada, o BC tem logrado o manter a trajetória do câmbio nominal dentro dos limites que deseja.

Na figura 2 pode-se observar o comportamento do câmbio nominal desde o lançamento do Real. Após uma abrupta valorização, da ordem de 15% em apenas três meses, nota-se a sustentação de valores estáveis até o início de 95, quando a adoção do sistema de mini-bandas móveis dá início a um tímdo processo de depreciação nominal.

 

 

 

Gráfico 2

 

O porquê da rapidez da estabilização de preços tem próxima associação à pressão exercida pelo concorrência dos produtos estrangeiros e à drasticidade com que seus preços em reais cairam logo no início do plano. Nas palavras de Gustavo Franco:

“De outro lado, ao abster-se de intervir” (diretamente, suprindo a omissão de Franco) “no mercado de câmbio, o BC permitiu, como se esperava, e como não poderia deixar de acontecer, uma apreciação nominal da taxa de câmbio. Tratava-se de ir além de umaâncora cambial” na medida em que se criava uma pressão deflacionária no universo de mercadorias e serviços com seus preços associados ao dólar.”(Franco, 1995, p.59)

Concomitantemente ao estrito controle da evolução do câmbio nominal, nota-se a acentuada fragilização do desempenho no setor externo do país. Desde o lançamento do plano, os déficits em conta-corrente e na balança comercial exibem deterioração significativa e de difícil sustentação a médio/longo-prazos. Interessa aqui avaliar a associação entre a ancoragem do câmbio nominal e a ocorrência do desequilíbrio externo.  

 

Gráfico 3

 

As dificuldades com o setor externo podem ser associadas à redução abrupta e sustentada do preço dos bens comercializáveis (Pt) com relação aos dos não comercializáveis (Pnt), uma decorrência usual em experimentos de ancoragem cambial. Hipotetizando uma economia inicialmente operando a nível de pleno emprego e com equilíbrio na balança comercial, um roteiro básico deste processo seria:

1.   A âncora cambial afeta de forma diferente os mercados domésticos de comercializáveis e não-comercializáveis. Opera diretamente sobre Pt,, segundo uma regra simples de arbitragem: Pt=EPt*  (onde E é a taxa nominal de câmbio e Pt* o nível externo de preços). Assumindo Pt* constante, uma valorização no câmbio nominal (E cai) pressiona por uma redução correspondente em Pt.

2.   Tomando como índice de câmbio real e =Pt/Pnt , na ausência de pressões imediatas para a redução em Pnt, os bens comercializáveis tornam-se relativamente mais baratos dos que os não comercializáveis e o câmbio real se aprecia (cai)[2];

3.   O novo preço relativo, dada a estrutura produtiva vigente, estimula uma redução na oferta doméstica de comercializáveis e uma elevação na produção de não comercializáveis. Efeito oposto afeta o lado da demanda

4.    que tende a substituir, na medida do possível, não comercializáveis por comercializáveis.[3] Resultam, simultaneamente, excesso de demanda de comercializáveis e excesso de oferta de não-comercializáveis.

5.   A manutenção da sobrevalorização cambial gera efeitos diversos a curto e longo-prazos. No curto-prazo, o excesso de demanda por comercializáveis é resolvido pelo aumento nas importações e redução nas exportações, o que só é possível mediante o endividamento externo. A médio e longo-prazos, a sustentação da sobrevalorização do câmbio real enseja uma realocação dos recursos e investimentos preferencialmente para a produção de não comercializáveis.

6.   O financiamento dos déficits comerciais, implica a elevação dos encargos com serviços do capital externo e a deterioração do saldo em transações correntes.

 

Apesar de extremamente simplificado, o roteiro acima representa uma explicação bastante plausível[4] para o comportamento das contas externas desde o lançamento do Real. Um panorama mais completo exigiria a discussão do aquecimento da demanda agregada doméstica associada ao fim da inflação e à forte redistribuição de renda associada à valorização cambial, fatores que intensificam as distorções acima por ampliar o excesso de demanda por comercializáveis e reduzir o excesso de oferta, eventualmente revertendo-o, no outro setor.

Têm-se, então, um diagnóstico bastante simples: o dilema verificado no Plano Real é o da conveniência e possibilidade de prolongar o desequilíbrio externo decorrente da sobrevalorização cambial.  As escolhas se resumem aos métodos de correção dos desequilíbrios e à forma de sua implementação.

As principais medidas tomadas pelo governo no sentido de lidar com o desequilíbrio externo, confirmam a rationale apresentada para sua existência e insinuam a opção pelo prolongamento da sobrevalorização cambial. Resumidamente, a estratégia do governo parece ser:

1.   Tentar limitar novos fluxos de oferta de capital estrangeiro de forma seletiva, estimulando a entrada de investimentos diretos;

2.   Aguardar que as “forças de mercado” num ambiente de globalização comercial estimulem ganhos de produtividade domésticos que aumentem a inserção externa;

3.   Realizar reformas infraestruturais (reduzir o “Custo Brasil”) e promover o crescimento;

4.   Realizar um ajuste fiscal, em suas diversas componentes,

5.   Usar sucedâneos de uma desvalorização cambial que não impliquem em alteração direta do câmbio nominal, vale dizer, subsidiar exportações e taxar importações,

6.   Tentar reduzir a demanda agregada doméstica com políticas fiscal, monetária e de crédito.

7.   Financiar os déficits em conta corrente que ocorrerem enquanto as medidas acima não surtirem efeito, sem prejuízo às reservas internacionais.

 

As sete medidas acima podem ser classificadas em três grupos distintos,  (1) a (4) representando alterações com foco em prazos mais longos, (5) e (6) sendo medidas emergenciais, eventualmente contraditórias às anteriores,  e a (7), propugnada transitória, aquela que permite a sobrevalorização cambial enquanto os ajustes fundamentais não se completam.

As quatro primeiras medidas indicam que o governo pretende ampliar a capacidade produtiva do país de forma que, no futuro, a taxa real de câmbio atualmente praticada deixe de gerar os desequilíbrios que vem ensejando desde o início do plano. Posto de outra forma, com tais medidas o governo tenta estimular adequações estruturais que tornem a taxa de câmbio real, hoje sobrevalorizada, numa taxa real de câmbio de equilíbrio.

Tal solução do desequilíbrio externo implica em alterações nas variáveis que definem o preço relativo compatível com o equilíbrio externo e interno ¾ dificultando a comparação dos valores de e no decorrer do tempo ¾, a informação relevante prestada pela taxa real de câmbio precisa, então, ser aferida pela importância dos desequilíbrios que causa a cada instante do tempo.  Admitindo que os esforços são no sentido de mitigar a sobrevalorização cambial constatada atualmente, a estratégia pode ser identificada com um processo de desvalorização cambial, atentando para o fato de que não é necessária a elevação dePt/Pnt no decorrer do tempo para que isto ocorra.

As medidas (5) e (6), por sua vez, evidenciam dificuldades de condução da estratégia de sobrevalorização cambial. (5) representa a tentativa de alterar artificialmente os termos de troca domésticos, contrariando o intuito de liberalização comercial, gerando distorções alocativas e a necessidade de arcar com os custos dos subsídios. (6), por sua vez,  revela o diagnóstico de excesso de demanda, usual corolário da sobrevalorização cambial.

Os fluxos de recursos externos, por sua vez,  têm-se mostrado essenciais à manutenção da estratégia do governo que, ao cabo de três anos de estabilização, orgulha-se em ter recorrido apenas marginalmente às reservas internacionais para manter o câmbio nominal (e real) sobrevalorizado. Com efeito, desde o lançamento da nova moeda, não raro observou-se o BC entrando no mercado comprando moeda estrangeira para evitar valorizações ainda maiores do Real, evidência inequívoca da agressividade na fixação das taxas de juros domésticas no período.

A manutenção de diferenciais de juros compatíveis ou superiores aos necessários para o financiamento dos significativos déficits em conta corrente corresponde à forma encontrada pela equipe econômica para a operacionalização da medida (7) acima. Sem dúvida, principal responsável pela  sustentação da estabilidade de preços até agora observada, o persistente uso deste recurso trouxe importantes implicações em termos de endividamento doméstico e externo.

A dívida externa total como percentagem do PIB vem crescendo à taxa de x% aa desde o início do plano, notando-se a crescente participação do setor privado na captação destes recursos. Internamente, por sua vez, a relação dívida PIB passou de   z  a zz entre 1994 e 1996, numa evolução de estabilidade duvidosa para a qual contribuem tanto a necessidade de esterilização dos novos fluxos externos como as altas taxas de juros praticadas para atraí-los.

Alternativas de convergência

 

A breve discussão sobre a lógica e evidências da estabilização apresentadas acima não deixa dúvidas de que a taxa real de câmbio encontra-se em acentuado desalinhamento e que as autoridades responsáveis encontram-se cientes deste fato. A magnitude da defasagem cambial depende dos índices empregados para sua mensuração, da escolha do valor de equilíbrio para o câmbio real e, da própria definição de câmbio real postulada, para o início de 96, as estimativas razoáveis giram em torno de 25%.

Diante deste quadro, avaliam-se três alternativas básicas à correção do desequilíbrio cambial:

(a) uma maxi-desvalorização não-anunciada;

(b)  uma aceleração anunciada da taxa de desvalorização cambial; e,

(c)  a manutenção do câmbio real inalterado.

Basicamente, espera-se que uma desvalorização abrupta do câmbio nominal deva:

1)  implicar em fortes perdas de capital para os devedores domésticos em dólar e credores externos em Reais, um efeito-riqueza negativo que recairia pesadamente sobre os setores financeiro, produtivo e público, compartilhado pelos emprestadores externos sem proteção contra variações cambiais;

2)  trazer uma redução rápida dos balanços reais monetários domésticos;

3)  gerar uma drástica queda dos salários reais (simétrica à verificada no lançamento do Real) ;

4)  desestimular o consumo de comercializáveis em favor dos não comercializáveis; e,

5)  estimular a produção de comercializáveis em detrimento dos não comercializáveis.

Como se percebe, por (1), (2) e (3), uma maxi-desvalorização teria caráter essencialmente recessivo e, muito provavelmente, viabilizaria a supressão dos desequilíbrios externos em poucos meses à custa do desequilíbrio interno.

As consequências (4) e (5), por sua vez, tenderiam a assumir caráter recessivo no curto-prazo e na proporção em que não houvesse excesso de capacidade logo após a implementação da medida corretiva ¾ o que seria pouco provável diante dos três primeiros efeitos apontados. A velocidade na realocação da produção, também dependente da existência de ociosidade de recursos, seria fator determinante para determinar o retorno ao crescimento sustentado.

No que concerne aos fluxos de capitais externos, a opção por uma máxi implicaria em desestímulo imediato à entrada de capitais especulativos  que, provavelmente, seria revertido ao longo do tempo pelas oportunidades de investimento no setor de comercializáveis.

Esta alternativa não seria necessariamente inflacionária, exigindo, para tanto, sobriedade na condução da política monetária e soluções consistentes nos desequilíbrios fiscais.

A alternativa da aceleração da taxa de depreciação cambial, por sua vez, objetivaria uma redução menos drástica na taxa real de câmbio, amenizando os efeitos (1) a (5) discutidos anteriormente. A abordagem soft, contudo, apresenta dois viéses que a tornam de eficácia duvidosa. Não podendo prescindir da manutenção de reservas internacionais abundantes, a aceleração na taxa de depreciação forçaria uma elevação (ou redução da queda) dos juros domésticos de forma a permanecer atraindo recursos externos enquanto o desequilíbrio externo não fosse sanado. Por outra via, a possibilidade de indexação dos preços domésticos ao câmbio aumentaria substancialmente, sugerindo a chance de retorno da inflação. As conseqüências desta estratégia com relação ao saldo em conta corrente mostram-se ambígüas,

A alternativa da redução dos desequilíbrios sem alteração política cambial, por fim, contrapõe cenários bastante diversos. A obtenção de sucesso com as medidas saneadoras e a reestruturação do aparelho produtivo discutidas na seção anterior, ter-se-ía o melhor dos mundos, propiciando condições para um desenvolvimento sustentado em ambiente não inflacionário. O intervalo de tempo para concretizar os ajustes, contudo, poderia facilmente superar uma década, para o que muito contribuem o desestímulo ao investimento na produção de comercializáveis associado à sobrevalorização cambial e as políticas de contenção de demanda que devem prevalecer neste interim.

A vulnerabilidade da estratégia de manutenção da sobrevalorização emerge primeiramente da percepção de que os ajustes estruturais almejados vem acontecendo de maneira extremamente lenta no âmbito do setor público e sob sinais ambíguos no setor privado. Com efeito, os grandes feitos do governo se resumem aos ganhos de eficiência eventualmente decorrentes do processo de privatização, sendo poucos os resultados práticos observados até o momento na órbita das reformas administrativa, previdenciária e tributária. Simultaneamente, as altas taxas de juros domésticas e as restrições creditícias permanecem obstacularizando o necessário processo de investimento produtivo, que ocorre a taxas seguramente inferiores às que ocorreriam sob custos razoáveis.

Artificial e drasticamente reduzido, o índice Pt/Pnt gera desestímulos para a produção e investimento no setor que será responsável, no futuro, pela geração de divisas necessárias ao pagamento dos serviços e amortização da dívida externa contraída atualmente. Os incentivos específicos e episódicos ao investimento no setor de comercializáveis mostram-se onerosos e insuficientes à solução rápida das distorções geradas pela agressiva política de estabilização.

Com a lentidão caracterizando os ajustes domésticos, a exposição e dependência com relação a capitais externos para financiar a transição é ampliada. De fato, se dependesse exclusivamente de suas míticas reservas internacionais para o financiamento do saldo em conta corrente, dificilmente o Plano Real teria ultrapassado o segundo ano de vida. Manter estoques exagerados de reservas internacionais sinalizaria, por outro lado, um compromisso com os esforços de estabilização à medida em que o diferencial na remuneração recebida por estes recursos e os custos de captação do governo é significativo, a disposição de arcar com tais custos sendo o “sinal de comprometimento”. A volatilidade dos fluxos internacionais de capital e a dificuldade em estabelecer um montante mínimo de reservas considerado “seguro”, contudo, trazem dúvidas razoáveis com relação à conveniência de arcar com os referidos custos de carregamento.

Uma condição necessária à manutenção do plano sem alterações de fôlego na política cambial é, portanto, a disponibilidade de fluxos externos a financiá-lo. Para avaliar os riscos de um refluxo de capitais, talvez conviesse procurar similaridades, não somente diferenças, entre o caso brasileiro e os recentes episódios no México, Tailândia e países vizinhos.

 

Conclusão

 

 

A luta travada pela manutenção forçada da sobrevalorização cambial tem como contendores o governo e o mercado doméstico. A continuidade do embate, contudo, depende inexoravelmente da disponibilidade de recursos externos para financiar e dar força à posição dos policymakers.  É, em suma, um espetáculo de duração desconhecida.

A manutenção da política atual, marcada pela abrupta e sustentada sobrevalorização do câmbio real oferece como recompensa um cenário ideal, com o país competitivo internacionalmente e pronto a assumir uma trajetória de desenvolvimento sustentado. É vincada, também, pela disposição de assumir riscos e custos de uma descontinuação indesejada. Custos e dificuldades em financiar os déficits em conta-corrente que ampliam-se com o tempo.

Reduzir os ônus de uma, cada dia menos eventual, crise cambial é a justificativa para considerar a mudança firme na condução da política atual. A mera aceleração da taxa de depreciação do Real, por sua vez, parece inferior à correção ensejada por uma máxi-desvalorização. Os problemas iniciaram, vale lembrar, com uma máxi-valorização.

Não se trata de desejar ou não a modernização ou estagnação do país, de preferir uma teoria a outra. O ponto é procurar, com objetividade, avaliar as relações custo/benefício esperados das políticas alternativas e contrastá-las à atualmente perseguida.  Nesta aposta está em jogo mais do que uma re-eleição ou interesses e disputas políticas  ou acadêmicas. Trocam-se os presidentes e as equipes econômicas, mas permanecem os brasileiros arcando com as apostas pouco conservadoras e, possivelmente irresponsáveis, realizadas no passado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Abstrai-se da análise do papel prestado pela Unidade Referencial de Valor no período precedente ao lançamento da nova  moeda. O artifício engenhoso facilitou sobremaneira o processo de estabilização baseado na ancoragem do câmbio  mas não é essencial ao desenvolvimento do argumento aqui desenvolvido.

[2] A pressão deflacionária sobre os preços dos comercializáveis, depende, naturalmente, do grau de substitutibilidade entre os produtos domésticos e estrangeiros, quanto maior a possibilidade de substituição entre os produtos pelos demandantes domésticos, maior a pressão. A rapidez dos ajustes de preços, por sua vez, é condicionada pela velocidade de entrada dos produtos estrangeiros nos mercados domésticos e/ou da perda de competitividade externa dos bens produzidos no país.

[3] Neste processo costuma, inclusive, ocorrer um aumento na proporção de bens/serviços caracterizáveis como comercializáveis, posto que a redução dos preços dos bens produzidos externamente pode  compensar os custos de transportes e tarifas que anteriormente impediam sua importação.

[4] Estes resultados são conclusões elementares do modelo TNT (tradables/non tradables), referência clássica na área de Internacional.