Brincando
com o Tempo
02/10/1998
Roland
Veras Saldanha Jr.
A
teoria econômica ainda encontra-se na idade da pedra quando trata da análise de
problemas dinâmicos. Em que pese a sofisticação matemática e os imensos
esforços despendidos nesta área, questões essenciais permanecem mal resolvidas,
ensejando lacunas no conhecimento que, dentre outras formas, refletem-se em
resultados desastrosos quando negligenciadas na formulação de políticas.
Em
experimentos de estabilização nos quais se permite uma valorização rápida e
acentuada do câmbio real - evento comumente associado à
estabilização de preços ancorada na fixação ou redução da variação da taxa de
câmbio nominal-, a fragilidade dos conhecimentos
sobre os processos dinâmicos de ajuste aos estímulos artificialmente gerados
torna-se especialmente nefasta.
A
taxa de câmbio é um preço chave nos mercados, ganhando relevância na proporção
da abertura efetiva ou almejada nas economias. Além de ser um índice facilmente
monitorado pelos diversos agentes, interfere diretamente na determinação de
preços dos bens comercializáveis, na remuneração dos ativos com mobilidade
internacional e, indiretamente, mas também de forma marcante, nos demais
mercados reais e financeiros. Diferentemente da maioria dos mercados sobre os
quais guarda influência, contudo, os ajustes no câmbio costumam ser bastante
rápidos e, livre de intervenções, suficientes para equiparar os fluxos de
oferta e demanda por moeda estrangeira a cada instante do tempo, impedindo que
tensões importantes se acumulem nos demais mercados.
A
opção pelo uso da âncora cambial para a estabilização de preços, seguindo esta
lógica, nada mais é do que a tentativa de forçar que todos os demais mercados
ajustem-se ao câmbio administrado, criar e direcionar as pressões que se
resolveriam de outra forma com o equilíbrio no mercado de divisas estrangeiras.
Os inúmeros conflitos conciliáveis com a alteração de um só preço
transformam-se e assumem novas proporções com apenas uma penada das autoridades
responsáveis pela fixação do câmbio.
Se
uma teoria dinâmica bem desenvolvida fosse desnecessária para dar suporte a tal
política, vale dizer, se todos os mercados se ajustassem rapidamente à nova
sinalização do câmbio, perceber-se-ía em breve lapso
de tempo o sucesso ou fracasso da empreitada. Em verdade, num mundo de ajustes
instantâneos, fixar o câmbio ou determinar administrativamente a estrutura de
preços relativos e sua evolução seriam alternativas semelhantes e, conhecida a
experiência brasileira pretérita com os congelamentos de preços, pouco
recomendáveis.
Quando
se conjugam as dificuldades “estáticas” aos problemas de ajustamento dinâmico,
que ocorrem com trajetórias e velocidades diferentes para cada mercado e sobre
os quais se sabe muito pouco, a tenacidade na manutenção do câmbio
artificialmente apreciado por longos períodos de tempo caracteriza
comportamento, no mínimo, irresponsável. Como não fosse suficiente, a
sobrevalorização cambial tem custos próprios que se acumulam no tempo, quer
pela manutenção de reservas internacionais abundantes em pronta
disponibilidade, e portanto com baixa remuneração, quer pelas perdas de
eficiência geradas ao se tentar conter a evasão de divisas ou ampliar sua
oferta através da elevação dos juros domésticos (livres de risco), concessão de
subsídios fiscais ou creditícios às exportações e
imposição de barreiras localizadas às importações.
Infelizmente o Brasil está longe de ser o
reino dos ajustes instantâneos. Pode levar bastante tempo para que se percebam
os custos da manutenção da sobrevalorização cambial. Enquanto as distorções alocativas e as dívidas interna e externa se acumulam,
contudo, parece haver tempo de sobra para procurar as enormes diferenças entre
o que já ocorreu com a sobrevalorização do câmbio no México, Argentina, Chile,
..., e o que ocorre atualmente no Brasil. Haveria tempo para tentar identificar
as poucas semelhanças?