A Guilhotina Real
16/04/1997
Roland Veras
Saldanha Jr.
Já
foi lugar comum, antes do Plano Real, encontrar argumentos críticos e pessimistas
amparados na baixa credibilidade dos policymakers.
A
falta de credibilidade, via de regra, resulta da tentativa das autoridades
responsáveis em enganar a sociedade civil, em prometer certas medidas e não
concretizá-las. Esta estratégia, denominada na literatura por “discricionária”,
ainda que possa mostrar efetividade em determinadas circunstâncias, finda por
construir a desconfiança na sociedade civil que, escaldada pela atitude
oportunista dos que a dirigem, passa a reagir como se as medidas anunciadas não
fossem ser implementadas a contento. A mera previsão de que pudesse ocorrer um
congelamento de preços, após a experiência do Cruzado, era suficiente para que
ocorressem corridas por estoques preventivos de mercadorias, em clara ação
especulativa contra governos com pouca credibilidade.
De
fato, havia certo consenso antes da implementação do Real, mesmo diante do
laconismo dos membros da equipe responsável, de que a estabilização seria
baseada numa âncora cambial. Uma das razões para tanto encontra-se na solução
fácil para a questão da falta de credibilidade que caracteriza planos de
ancoragem no câmbio nominal. O atrelamento da moeda doméstica a uma moeda forte
limita sobremaneira a possibilidade de discricionariedade governamental, tanto
pela facilidade de monitoramento do câmbio como pela impossibilidade de
manutenção de desajustes estruturais graves ao longo do tempo na economia que,
repercutindo no mercado cambial, forçariam à descontinuação da política
proposta. Tudo se passa como se o executivo colocasse a cabeça numa guilhotina,
controlada pela sociedade, e passasse a cumprir o que prometeu sob pena de
decapitação.
A
atual equipe econômica vive situação extremamente confortável no que concerne
ao cometimento com suas intenções. Com efeito, tem conseguido sustentação, da
população e até dos investidores estrangeiros, a despeito das absurdas taxas de
crescimento das dívidas interna e externa, da manutenção de juros domésticos
três vezes maiores que os internacionais, da reversão paulatina da abertura
comercial ¾
subjacente aos limites (tarifários e não-tarifários) impostos às importações ¾
, sem falar nos desempenhos medíocres no crescimento do PIB e no âmbito do
comércio internacional. Efetivamente, o controle cambial (e a manutenção de largas
reservas internacionais) com a finalidade precípua de manter estabilizados os
preços domésticos parece intocável, e indica-se preferir qualquer alternativa,
ao custo que tenha, a mexer no câmbio.
Ocorre
que, com o passar do tempo, o governo alinha a seu lado, sob a lâmina da
guilhotina, o setor privado doméstico e, subsidiariamente, os parceiros do
Mercosul. Os importadores, que se estruturam para a economia aberta e com o
câmbio atrasado, o setor financeiro, captando recursos externos sem receio e repassando-os
a nacionais, e algumas nações vizinhas, como é o caso da Argentina, sofreriam
drásticas perdas com uma desvalorização do câmbio. Aparentemente, destruindo as
pontes pelas quais passa, a equipe econômica demonstra que não há a
possibilidade de retorno, da flexibilização cambial que solucionaria a maior
parte das inconsistências acima apontadas.
Tal
atitude, contudo, antes de demonstração firmeza de propósitos, representa
predisposição absoluta a assumir os altos riscos do ajuste futuro no câmbio. A
manutenção da atual política não pode prescindir do financiamento externo,
variável fora do controle do Banco Central do Brasil, e, mesmo que este não
falte, implica em obrigações futuras, tanto sob a forma de serviços da dívida
como em sua amortização, que recairão, mais adiante, sobre os crédulos de hoje.
A continuar assim, será necessário muito mais que um milagre brasileiro para se
gerar domesticamente os recursos ao adimplemento da dívida e encargos que se
contratam, sem escrúpulos, atualmente.
Antes
de pessimista ou antipatriótico, este argumento em tom crítico procura levantar
dúvidas sobre a conveniência para a sociedade brasileira de um comportamento
tão agressivo ao assumir tais riscos e potenciais perdas que, inexoravelmente,
aumentam no decorrer do tempo. A discricionariedade dos governantes, assim,
assume caráter diverso do anteriormente posto. Não se trata de mudar regras
circunstancialmente, mas de evitar corrigir regras que expõe-se contrárias ao
desenvolvimento estável da sociedade, do poder discricionário no postergar
ajustes e impor aos brasileiros custos desnecessários e maiores do que os
associados a uma correção imediata de rumos.
Por outra via, o descalabro é facilmente
compreensível. Oxalá não aconteça, mas alguém imagina que a queda da lâmina
afetará as pessoas “físicas” que criaram e sustentam esta situação?